2.º PRÉMIO PARA A ALUNA DO CIC MARIANA SILVA, DO 10.º H2, NO CONCURSO "CONTOS DO RIO"

Mariana Silva – 10.º H2
30-07-2019

Escrever é, simultaneamente, um trabalho e uma forma de crescer, uma forma de estudar e uma forma de viver. Viver pela escrita é um dom, que todos temos, porém poucos realmente o saboreiam.

 

Para podermos saborear e desfrutar deste dom, é necessário que mantenhamos a mente aberta, bem como o nosso coração, tendo em conta que a melhor forma de escrita é aquela que cativa não só os olhos, mas também todos os outros sentidos de igual modo. Aquela que nos enche de novos perfumes, nos prende a ponta dos dedos sobre as páginas, nos obriga a soltar um longo suspiro e nos atulha de novos sabores.


Para além disso, escrever é uma forma de introspeção que nos conduz a um melhor conhecimento de nós mesmos e a um crescimento como pessoas com projetos de vida com sentido!


A minha participação no concurso literário “Contos do Rio”, dinamizado pelo Colégio Mira Rio, concedeu-me uma exploração arrebatadora de como a escrita nos completa, transborda, entrega, retira, proporciona… É fundamental que todos mostremos a devida consideração pela arte, que são as letras. Claro está que todos temos essa arte, através da qual nos exprimimos. No entanto, a escrita é tanto arte como ensinamento, crescimento e enriquecimento interior.


A meu ver, é importante que todos os discentes desenvolvam o gosto pela escrita, usando a sua imaginação, e que participem neste género de concursos. Hoje, podem estar a participar só porque o/a professor/a de Português os aconselhou. Todavia, amanhã, poderão descobrir o seu maior sonho e a sua futura aspiração de vida.


Por fim, gostaria de lhes deixar um último apelo: escrevam, sonhem, vivam como se todos os dias fossem uma bênção, pois a verdade é esta mesmo – todos os dias e todos nós somos milagres. Milagres à espera de serem aproveitados.


Mariana Silva – 10.º H2

 

Transcreve-se o texto premiado:

«Cheguei aos quarenta, e agora?

Chegou o tão temível dia... O meu aniversário e, infelizmente, não um qualquer. Hoje é o meu 40.° aniversário!


Desde que me lembro, as mulheres da minha família temem esta idade. A minha avó deu em maluca e gastou milhões de euros em cremes antienvelhecimento. A minha mãe começou a pôr botox, enchimentos, silicone... Fez todas as operações possíveis e imagináveis.


Eu, por outro lado, estava decidida a manter-me completamente sana e, por isso, decidi pegar nas minhas malas e enchê-las com o que preciso, escapulir-me de casa a meio da noite e ir num retiro de yoga na Índia. De início, esta ideia pode parecer excêntrica. Mas, pensando bem, não é nada demais. É só uma viagem pequenina.

Sentada no cadeirão azul da sala, observo o relógio de parede à espera que os seus ponteiros indiquem a minha chegada à horrorosa meia-idade. E, mal se dá a chegada da meia-noite, ouço várias mensagens que se fazem ouvir no meu telemóvel. Dou um leve sorriso antes de encostar os lábios na taça de vinho tinto. Bebo o vinho de uma só vez. Olho, então, para a garrafa e faço o líquido bordô deslizar pela minha garganta.


Sinto, finalmente, a coragem necessária para pôr o meu plano em ação. Arrumo roupas, sem pensar, dentro duma mala de viagem e preparo-me para sair. Chamo um táxi para me levar até ao aeroporto, já que, dentro de duas horas, tenho de estar a entrar no avião.


Mal lá chego, vejo um casal aos beijos. Deve ser o vinho todo que bebi a fazer-me ter estas ações, mas caminho, vacilante, sobre os meus Louis Vuitton até ao casal e, quando dou por mim, já estou a falar demais.


– Pensam que esse amor vai durar imenso? Que vai ser um amor para a vida... Que vão ficar juntos para sempre? Adivinhem? Não vão. Olhem para mim! Tenho quarenta anos e sou solteira. Ando com homens que só querem ir diretos ao assunto. E o meu último relacionamento terminou, porque ele me deixou pela sua secretária que parece que acabou de sair do Secundário!


Sei que falei demais, porém, verdades nunca magoaram ninguém, acho eu.


Os seguranças tentam-me acalmar e, quando não conseguem, pedem que me retire do aeroporto.


Novo plano: vou para uma discoteca. Beber, dançar e festejar o meu aniversário. Chamo outro táxi e, no caminho, dispo as minhas calças de ganga e a minha t-shirt velha e tento vestir o vestido que costumava usar quando saía à noite. O raio do vestido não fecha! Sinto o olhar do condutor sobre mim pelo pequeno retrovisor. Mando-lhe o olhar “Mete-te na tua vida” e ele devolve a sua atenção à estrada.


– Agora também estou gorda? Que mais vai vir hoje? – pergunto em voz alta.


Consigo, com um tanto estorvo, fechar o vestido. Arranjo o cabelo com os dedos e coloco um batão vermelho escarlate sobre os meus lábios nus. Entro para a discoteca e ouço logo aquele som impossível da música atual. Caminho diretamente para o bar e peço qualquer coisa com álcool. Assim que chega, bebo de uma vez e vejo um grupo de miúdos com os seus vinte anos olhar para mim. Um deles caminha na minha direção e para à minha frente. Tenta, então, mandar charme.


– Então... acreditas em amor à primeira vista ou tenho de passar por aqui outra vez? – pergunta-me o rapaz.


Não é feio, considero até que é bem-parecido e musculado (provavelmente joga futebol na Faculdade). No entanto, é uma criança. Solto uma risada sobre a tentativa de dar a entender que acho que é uma piada.


– Gostaste? Aqui vai outra: diz-me o teu nome para eu te pedir ao Pai Natal. – Volta a falar com um sorriso extasiante nos lábios carnudos.


Parece que não entendeu o que eu queria transmitir...


– Olha, pareces ser um miúdo fantástico. Mas não estou a procurar ser presa por envolvimento com um menor. – digo antes de me afastar.


Ouço os amigos dele rirem-se atrás de mim. E é então que sinto que alguém agarra o meu braço e me vira para trás.


– Estás a gozar com a minha cara? Mano, quantas chicas querem ter a possibilidade de, pelo menos, falar comigo e tu a negares? Podes ser uma grande MILF, mas sabes uma coisa? Já se vêm rugas por toda a tua cara. – protesta o miúdo.


Primeiro: não sou teu “mano”. Segundo: não chames às raparigas chicas. E terceiro: essas “chicas” devem estar malucas por quererem falar contigo, porque, sempre que abres a boca, é como se estivesse a falar com uma criança. – respondo.


– Com criança, a senhora quer dizer o seu neto. Certo? – contrapõe ele.


SEGUREM-ME! Acho que é hoje que perco as estribeiras! Sem pensar, mando um soco na cara de ouro do menino e, mais uma vez, naquela noite, os seguranças pedem-me que saia.


Decido ir, então, para casa. Entro no táxi e está a dar uma música da minha infância e volto a lembrar que tenho quarenta anos. Quando olho o relógio, vejo que são quatro e quarenta da manhã. Respiro fundo e observo, pela janela, as ruas passarem. O tempo passa muito rápido, passa rápido demais. Tenho quarenta anos e estou sozinha.


Chego a casa e abro a porta. Entro e, quando ligo as luzes, ouço um altíssimo “Surpresa!” e vejo toda a minha família e todos os meus amigos saltarem e virem abraçar-me. Olho para o bolo e vejo duas velas brancas colocadas: um número dois e um número zero.


– Parabéns pelos teus vinte anos, Wendy! – gritam todos.


– O teu segredo está guardado connosco. – diz o meu pai ao meu ouvido antes de me piscar o olho.


Parece que afinal fazer quarenta anos não é o fim do mundo... Mas uns cremes antienvelhecimento e um pouco de botox nunca fizeram mal a ninguém, pois não?»


Mariana Silva – 10.º H2